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21/12, 2005 17:37 por Fellipe
Neste artigo serei 99% conceitual e 1% técnico, portanto, tome uma água ou um café quente antes de começar a ler.
Quem quer garantir o seu espaço na internet geralmente pensa em promover algo. Se for uma empresa, a promoção será dos seus produtos ou serviços. Se for uma organização, a promoção será a da sua ideologia ou tecnologia. Se for uma pessoa, a promoção será das suas façanhas ou dos seus freelances. Pouquíssimos tentam se alinhar com o principal objetivo da rede mundial de computadores: facilitar a comunicação entre as pessoas.
Não quero ser radical ao ponto de ir contra a propaganda ou promoção de produtos ou serviços que só visarão lucro a quem se propõe divulgá-los, mesmo porque é exatamente isto que impulsionou o mercado virtual a crescer até hoje, mas, que gera um pouco de atrito com os puristas, gera.
Abaixo, um artigo interessante sobre um purista. O artigo foi modificado para conter meus próprios comentários e pontos de vista sobre as opiniões mais marcantes da entrevista. Para vê-la na íntegra, acesse http://www1.folha…124u19417.shtml.
O pesquisador Doug Sculer falou à Folha sobre a relação entre internet e questões sociais. Vinculado à organização norte-americana CPSR (Computer Professionals for Social Responsability), sigla em inglês para Profissionais de Computação pela Responsabilidade Social, Schuler defende a idéia de que o papel da rede mundial vai muito além dos negócios ou do entretenimento, e que, acima de tudo, seu uso deve estar baseado na educação da população internauta. Leia abaixo a entrevista concedida por telefone.
Folha - O senhor usa o termo “inteligência cívica” para falar sobre o uso social da internet. Em que consiste este conceito?
Doug Schuler - Os efeitos que a tecnologia terá na sociedade dependerão das decisões tomadas ao longo de seu curso. A internet pode se tornar uma rede televisiva, ou seja, uma comunicação de mão única, se não for conscientemente usada como ferramenta para o desenvolvimento humano. A inteligência cívica diz respeito às pessoas coletivamente comprometidas com a proposta de tentar tomar as decisões corretas.
FC – Bonito, mas utópico. Schuler está corretíssimo ao dizer que a internet jamais deve ser encarada como uma via de comunicação de mão única, no entanto, quando ele afirma que é necessário deixar nas mãos do povo as “decisões corretas” esta idéia concreta torna-se uma salada heterogênea de contra-argumentos. Primeiro porque os povos, culturalmente dizendo, já têm interesses distintos, e segundo que não existem pessoas que estão de fato comprometidas com a informação divulgada.
Vide o problema que a Wikipédia está tendo: Anunciantes, calúnias, discrepâncias, absurdos, etc. A internet é uma via de mão dupla com certeza, mas, sempre necessitará de um guarda para o trânsito. Não que ele vá impedir tudo que acontece, mas ao menos vai inibir e desmotivar as pessoas que estão propícias a “zoar o barraco”.
Este é o trabalho que a RIAA está fazendo já há um bom tempo. Eles têm ciência que nunca poderão parar a cópia ilegal de música, contudo, inibem ao máximo que podem as pessoas, gerando até situações ridículas como tentar mandar para a cadeia uma velhinha de 70 anos que, a propósito, já havia batido as botas. Em resumo, não existe comprometimento de todo o público, e nunca existirá.
Folha- Isso significa que a rede deveria ser controlada por um núcleo?
Schuler - Não, até porque não há ninguém no controle de tudo. Algumas pessoas têm mais poder do que outras. Bill Gates tem muito poder, mas não está no controle. Acho que a sociedade civil e as pessoas interessadas na educação, no desenvolvimento e em direitos humanos têm de se fazer ouvidas. Não queremos só entretenimento.
FC – Achei estranha a pergunta da entrevistadora. Se o Schuler disse que é coletivo o controle, de onde ela tirou a idéia do núcleo? Enfim, a resposta foi condizente com a contraditória pergunta, afirmando que não devemos ter núcleos de poder, e sim centralizações inteligentes. O coeficiente que pode medir isso é bem humano e conhecido: credibilidade.
Folha - Como essa discussão pode ocorrer em países onde há censura do conteúdo on-line?
Schuler - Meu filho esteve na China, onde ele mantinha um blog, e, nos primeiros meses, ele sequer pôde ler o que escrevia. Muitos chineses estão buscando outras maneiras de usar a internet, para lutar por direitos democráticos e por outras questões, e encontraram grande resistência do governo. Mas isso também ocorre em outros países.
FC – Democracia é sinal de evolução social, não há o que discutir quanto a isso. O problema é que sempre existem os exageros. Existem pessoas que abusam da liberdade de expressão por achar que estão dentro do seu direito civil, contudo, ferem um código ético. O exagero contrário é o caso da China, quando em prol da falsa ética, proíbe a desrespeitosa liberdade. A verdade é que deveria existir uma base sólida na educação do indivíduo, para evitar estes abusos. Quem sofre com isso? A população. Quem pode reverter? A futura geração.
Folha - O senhor conhece o programa PC Conectado, do governo brasileiro? O que acha dele?
Schuler - Fantástico. A inclusão não é algo que se dê sem o apoio do governo. É preciso focar nos grupos marginalizados. Contudo não se trata apenas de fornecer computadores, mas também de dar educação e treinamento.
FC – Schuler não conhece a situação do Brasil mesmo. Faltou ele citar comida, trabalho, segurança, condições financeiras justas, saneamento básico, acabar com corrupção do alto escalão e mais uns 30 itens. O PC Conectado fica lindo na foto, mas em qual tomada será plugado para funcionar?
Folha - De acordo com o pesquisador do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts], Nicholas Negroponte, que tem um projeto de fornecer laptops a US$ 100, para a inclusão digital, a educação é secundária, pois, segundo ele, até quem não sabe ler consegue usar o micro.
Schuler - Eu discordo totalmente. Ele é um tecnólogo e, como tal, para ele tudo é um problema de tecnologia. Os funcionários do McDonald’s, por exemplo, podem apertar a tecla que contém a imagem de uma batata frita para fazer um pedido. É possível fazer coisas do gênero, mas isso não é educar, é um raciocínio tecnológico. Vamos jogar computadores de pára-quedas no meio da África? Essa é uma visão estreita e pouco imaginativa ou realista. Não se pode ignorar o lado social. Fabricantes de micros e operadoras de internet gostam de ouvir coisas como as que Negroponte diz, porque podem vender mais com isso. Não acuso Negroponte, acho que ele está bem-intencionado. Mas discordo de prognósticos como ‘eu sei do que as pessoas na África precisam: do meu computador barato’.
FC – Novamente. Existem problemas mais básicos para serem resolvidos antes de tudo. Lógico que fornecer a tecnologia a um custo acessível pode acelerar a tal igualdade, mas não garante que ela vá existir. Tecnólogo que sou, concordo com a visão do Negroponte, no entanto, Schuler não erra ao dizer que não podemos restringir nossa visão a um problema isolado. Negroponte 1 x Shculer 1.
Folha - O senhor acha que o impacto de iniciativas de grandes empresas, como o Google, é benéfico para a rede?
Schuler - Não posso comentar isso, pois não tenho um conhecimento muito aprofundado do assunto. Mas posso dizer que medidas que visam simplificar a internet me deixam nervoso. Tudo o que é muito comercial ou corporativo é preocupante. Sou cético quando uma grande companhia quer simplificar a rede. Isso significa que seremos conduzidos apenas para sites de interesse corporativo? É problemático.
FC – Ótimo! Mas alto lá, se não forem as empresas e a concorrência, quem é que vai impulsionar o acesso e a simplificação? O Governo?
Folha - Quais a melhor e a pior coisas que a internet trouxe para as nossas vidas?
Schuler - A melhor eu creio que seja a formação de grupos com interesses semelhantes, unindo pessoas de todo o mundo. O acesso à informação também é incrível, poder consultar a bons materiais gratuitamente. Há dez anos, quem diria que seria possível fazer um curso on-line do MIT sem pagar nada? Como ponto negativo, acho que há muitas coisas que são um insulto à nossa inteligência, uma verdadeira perda de tempo. Também me preocupa o uso da internet como um meio de propaganda ou de espionagem. Seu potencial de abuso é enorme. A exploração desse potencial não é algo pelo qual eu espere, mas é assustadora.
FC – Concordo.
Folha - A internet acabou por dar maior valor à informação?
Schuler - Por um lado, a informação virou uma “commodity”, já que foi posto um preço sobre ela. Mas por outro, há muita informação gratuita na rede. Difícil é filtrá-la. As pessoas têm de ser espertas e preparadas o suficiente para desconfiar de informações dúbias. A única maneira de conter isso é por meio da educação.
FC – Caímos na discussão “até quando é saudável captar informação?”. Nos últimos 10 anos geramos mais bytes do que a humanidade toda gerou desde o começo dos tempos. Sabemos filtrá-la? Não! Isso é questão de inteligência? Talvez, contudo, ainda estou longe de saber o que é útil antes de ver do que se trata. Acho que é mais questão de bom-senso. Não vou assinar o site FofocasdeNovela.com e esperar que notícias úteis apareçam na minha caixa de entrada, por exemplo.
Folha - A educação também contribui para evitar golpes virtuais?
Schuler - Quando recebo spam, por exemplo, sei distingui-lo das mensagens legítimas. Acho que os criminosos sempre tentarão prejudicar as pessoas, mas certamente educação não faz mal a ninguém.
FC – E quando você recebe 50 spams a cada meia hora, Schuler?
Folha - Que outras parcelas da sociedade devem se envolver nisso? (sobre futuro da web)
Schuler - Os estudantes são um grupo interessante, pois estão sempre buscando novas informações, têm esperança e crêem que se você entender um problema, será capaz de solucioná-lo. Também gostaria de ver as grandes corporações atuando como cidadãs do mundo. O fato é que a tecnologia, por si só, realmente não é a resposta.
FC – Sem dúvida a tecnologia é um meio para facilitar (ou complicar) a resolução de nossos problemas. Contudo, uma escala muito maior de responsabilidade é associada a essa resolução, e no final das contas, cada vez menos pessoas ficam responsáveis por mais coisas. O fato é que a tecnologia, por si só, realmente não é a resposta, mas ela transforma totalmente os hábitos daqueles que conhecem-na.
Este artigo foi publicado Wednesday, 21 de December de 2005 às 17:37 e foi categorizado como conceitual, bananal, Trackbacks.
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